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no dia de natal
nas vitrines coloridas
expostas
estão a todos os olhos e mãos (pode-se pegar só se for levar)
para meninos: monstros, powers rangers, caminhões hiper equipados, tanques, naves de guerra, armas ornamentadas e cheias de barulhos, automóveis de todos os tipos e hiper velozes... etc...
para meninas: barbies, todo tipo de hello kitty, roupas sensuais, eletrônicos cor-de-rosa, cosméticos e tudo para o make up, espelhos, cozinhas completas... etc...
e como escreveu eduardo galeano:
fast food, fast cars, fast life:
desde que nascem, meninas e meninos ricos são treinados para o consumo e para a fugacidade e passam a infância acreditando que as máquinas são mais confiáveis do que os seres humanos.
chegando a hora do ritual de iniciação, ganharão seu primeiro jipão fora de estrada, com tração nas quatro rodas, mas durante os anos de espera eles se lançam a toda velocidade nas autopistas cibernéticas e confirmam sua identidade devorando imagens e mercadorias, fazendo zapping e fazendo shopping. os cibermeninos viajam pelo ciberespaço com a mesma desenvoltura com que os meninos abandonados perambulam pelas ruas da cidade.
muito antes dos meninos e meninas ricos deixarem de ser meninos e meninas e descobrirem as drogas caras que mascaram a solidão e o medo, já estão os meninos e meninas pobres aspirando tiner e cola de sapateiro. enquanto os meninos e meninas ricos brincam de guerra com balas de raios laser, os meninos e meninas de rua são ameaçados pelas balas de chumbo.
na américa latina, crianças e adolescentes somam quase a metade da população total.
a metade dessa metade vive na miséria.
sobreviventes: na américa latina, a cada hora, cem crianças morrem de fome ou doença curável, mas há cada vez mais crianças pobres em ruas e campos dessa região que fabrica pobres e proíbe a pobreza. crianças são, em sua maioria, os pobres; e pobres são, em sua maioria, as crianças.
e entre todos os reféns do sistema, são elas que vivem em pior condição. a sociedade as espreme, vigia, castiga e às vezes mata: quase nunca as escuta, jamais as compreende.
esses meninos e meninas, filhos de gente que só trabalha de vez em quando ou que não tem trabalho nem lugar no mundo, são obrigados, desde cedo, a aceitar qualquer tipo de ganha-pão, extenuando-se em troca de comida, em todos os rincões do mapa do mundo.
depois de aprender a caminhar, aprendem quais são as recompensas que se dão aos pobres que se portam bem: eles, e elas, são a mão-de-obra gratuita das fabriquetas, das lojinhas e das biroscas caseiras, ou são a mão-de-obra a preço de banana de indústrias de exportação que fabricam trajes esportivos para as grande empresas internacionais.
trabalham nas lidas agrícolas e nos carregamentos urbanos, ou trabalham em suas casas para quem mande ali.
são escravinhos e escravinhas da economia familiar ou do setor informal da economia globalizada, onde ocupam o escalão mais baixo da população ativa a serviço do mercado mundial:
nos lixões da cidade do méxico, manila, belo horizonte, são paulo ou lagos, juntam garrafas, latas e papéis, e disputam restos de comida com os urubus;
mergulham no mar de java em busca de pérolas;
catam diamantes nas minas do congo;
são as toupeiras nas galerias das minas no peru, imprescindíveis por causa da pequena estatura, e quando seus pulmões deixam de funcionar são enterrados em cemitérios clandestinos;
colhem café na colômbia e na tanzânia e se envenenam com os pesticidas;
envenenam-se com os pesticidas nas plantações de algodão da guatemala e nas bananeiras de honduras;
na malásia recolhem látex das árvores do caucho, em jornadas de trabalho que vão de estrela a estrela;
deitam trilhos ferroviários na birmânia;
ao norte da índia se derretem nos fornos de vidro e ao sul nos fornos de tijolos;
em bangladesh têm mais de trezentas ocupações diferentes, com salários que oscilam entre o nada e o quase nada por cada dia que nunca acaba;
correm corridas de camelos para os emires árabes e são ginetes campeiros nas estâncias do rio da prata;
limpam pára-brisas nas esquinas do rio de janeiro, lima, quito ou buenos aires;
lustram sapatos nas ruas de são paulo, caracas e recife;
costuram bolas de futebol no paquistão e bolas de beisebol em honduras e no haiti;
para pagar as dívidas de seus pais, colhem chá e tabaco nas plantações do sri lanka e jasmins no egito, destinados à perfumaria francesa;
alugados pelos pais, tecem tapetes no irã, no nepal e na índia, desde antes do amanhecer até depois da meia-noite, e quando alguém chega para resgatá-los, perguntam: “você é o meu novo amo?”;
vendidos a cem dólares pelos pais, oferecem-se no sudão para prazeres sexuais ou qualquer trabalho...
e a elite e sua tropa continuam acreditando que isto é assim e assim será.
seus políticos e cientistas explicam a situação através de elaborados gráficos
e relatórios neoliberais: é a natureza da competição: uns pobres outros ricos.
dia após dia nega-se às crianças o direito de serem crianças.
os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana.
o mundo trata os meninos e meninas ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua.
o mundo trata os meninos e meninas pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo.
e os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa de televisão e ao computador e playstation, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira.
muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.
...
meu irmão somos um paradoxo: shopping de misérias.
ResponderExcluirÉ, Fernando, a realidade é dura, bréu...
ResponderExcluirao final das contas...
prevalece a lógica capitalista
que a todos separa
f r a g m e n t a
( Os ismos ainda não deram conta, será que um dia darão?...)
Em Cajazeiras - cidade cercada por longínquas serras -, a marginalidade é impactante.
Meninos e meninas pedem trocados sempre descalços, farejam as sobras que se deixa à mesa... E há ainda os zumbis, os mortos-vivos que, de centavos em centavos, acumulam os meios de mascarar a dor e a solidão...
As pessoas nada fazem ver... enquanto isso, há os que desfilam com seus zeros quilômetros emparelhados por toneladas de som...
Essa realidade pode ser vislumbrada em o filme "O sonho de Inacim", gravado em Cajazeiras, que tem como protagonista José Wilker. Deixo a indicação.
Ótimo e apropriado grito, meu querido.
Parabéns por sua sensibilidade.
Beijo,
H.F.
rubens e hercília!
ResponderExcluirainda temos a contra-dicção
resistir é ação
não é verbo pancada recebida
é prática que rompe a superfície
da inanição
hercília boa dica: fica aqui a divulgação do sonho de inacim...
adelante!